T1E10 - Quem construiu o novo Porto do Rio? A história da britânica C.H. Walker e da obra que redesenhou a costa Foto: Composição editorial baseada em registros históricos reais
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História do Porto

T1E10 - Quem construiu o novo Porto do Rio? A história da britânica C.H. Walker e da obra que redesenhou a costa

Em 1903, o Governo Federal contratou a britânica C.H. Walker & Co. para executar a modernização do Porto do Rio. A obra criou cais, armazéns e aterros que mudaram para sempre a Saúde e a Gamboa.

Por Marcio do ClassiX · 15 de Outubro de 2026 · 9 min de leitura · 32 views ·

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Artigo 10

Quem olha hoje para a longa faixa de cais e armazéns entre a Saúde e a Gamboa talvez imagine que tudo aquilo tenha sido resultado apenas de um projeto brasileiro executado diretamente pelo poder público.

Mas uma empresa britânica teve papel central nessa transformação.

Em setembro de 1903, o Governo Federal contratou a C.H. Walker & Co., firma inglesa especializada em grandes obras de engenharia, para executar os melhoramentos do Porto do Rio. O contrato fazia parte do amplo programa de modernização conduzido durante o governo Rodrigues Alves, num momento em que o Rio de Janeiro passava por reformas urbanas, sanitárias e viárias de enorme escala.

A empresa não era uma desconhecida no setor.

Estudos da Prefeitura registram que a C.H. Walker havia sido fundada em 1850 e já tinha participado de obras importantes, como as docas de Swansea, o Manchester Ship Canal e instalações portuárias em Buenos Aires. O contrato do Rio teria alcançado cerca de 4,5 milhões de libras, valor expressivo para a época.

As obras começaram em 29 de março de 1904. A companhia chegou a empregar regularmente mais de 2 mil trabalhadores durante os trabalhos.

E o desafio era muito maior do que simplesmente construir um cais.

O antigo porto do Rio ainda funcionava de forma fragmentada, com trapiches e instalações espalhadas pela Praça Mauá, Saúde, Gamboa, Enseada de São Cristóvão e outros pontos da costa. A modernização exigia unificar essa estrutura e criar uma frente portuária muito maior.

Para isso, a C.H. Walker precisou ajudar a construir também o próprio terreno onde o novo porto funcionaria.

Grandes aterros avançaram sobre a Baía de Guanabara, especialmente diante da Saúde e da Gamboa. Sobre essa nova faixa de terra foram implantados cais, armazéns, trilhos ferroviários, vias e áreas destinadas à movimentação de mercadorias.

A PortosRio registra que o projeto previa cerca de 3.500 metros de cais, além da implantação do Cais da Gamboa e de sete armazéns.

Essa obra mudou completamente a relação dos bairros históricos com o mar.

Antes, a costa era recortada por praias, enseadas e pequenos trapiches. Depois, surgiu uma frente portuária muito mais contínua, regular e preparada para receber embarcações maiores.

A própria Avenida Rodrigues Alves está diretamente ligada a essa nova configuração territorial.

Uma obra portuária que também virou obra de cidade

A modernização do porto não aconteceu isoladamente.

Ao mesmo tempo, o Rio construía a Avenida Central, atual Rio Branco, ampliava a Avenida do Mangue e realizava grandes obras de saneamento.

A Prefeitura registra que a Comissão Fiscal e Administrativa das Obras do Porto era presidida por Vieira Souto, enquanto a parte operacional ficou sob responsabilidade de Francisco Bicalho.

Ou seja, porto e cidade estavam sendo transformados ao mesmo tempo.

A lógica era simples: não adiantava receber mais navios se as mercadorias continuassem presas em ruas estreitas, cais improvisados e estruturas desconectadas das ferrovias.

Por isso, a obra portuária foi acompanhada de novas conexões viárias e ferroviárias.

A C.H. Walker também esteve ligada a outros trabalhos do programa de reformas. Documentação municipal registra, por exemplo, que Carlos Sampaio continuou dirigindo o desmonte do Morro do Senado a serviço da empresa, mostrando como a companhia acabou envolvida em diferentes frentes da transformação urbana.

A inauguração veio antes do fim de todas as obras

O Porto do Rio foi oficialmente inaugurado em 20 de julho de 1910.

Mas existe uma curiosidade importante.

Naquele momento, apenas cerca de 800 metros de cais estavam efetivamente concluídos, de um total previsto de 3.500 metros. Os trabalhos continuaram até 1911, quando foi finalizada a primeira seção entre o Arsenal da Marinha e o Canal do Mangue.

Isso significa que a “inauguração” não representou o encerramento completo do projeto.

A transformação ainda estava em andamento.

Depois, a exploração do porto foi transferida para outras empresas. A PortosRio registra que, a partir de 1911, a administração ficou com a Compagnie du Port de Rio de Janeiro, permanecendo assim até 1922.

A C.H. Walker, portanto, foi principalmente a grande construtora da infraestrutura que permitiu a passagem do antigo sistema de trapiches para o porto moderno.

O que ainda existe dessa obra?

Muito do desenho criado naquele período ainda pode ser reconhecido.

Os grandes armazéns históricos, o Cais da Gamboa, a faixa aterrada diante da Saúde e da Gamboa e o próprio eixo da Avenida Rodrigues Alves são heranças diretas daquele processo.

É possível observar boa parte dessa paisagem caminhando pela Orla Conde, Saúde e Gamboa, embora as áreas operacionais do porto tenham acesso controlado.

Um bom percurso começa na Praça Mauá e segue pela Saúde em direção à Avenida Barão de Tefé e à Gamboa.

Ao longo do caminho, vale observar uma característica essencial:

os morros antigos permanecem atrás. A longa faixa plana diante deles é, em grande parte, produto das obras que transformaram a costa no início do século XX.

Foi nesse espaço que o novo Porto do Rio ganhou forma.

Uma curiosidade que muda a forma de olhar para o porto

O nome C.H. Walker quase desapareceu da memória cotidiana da cidade.

Não há um grande monumento turístico explicando que uma empresa britânica participou diretamente da construção de parte fundamental da paisagem portuária atual.

Mas a marca dessa empresa está no próprio território.

Está no cais.

Nos aterros.

Na disposição dos armazéns.

Na faixa plana que separa os morros da Baía.

E na escala que o Porto do Rio passou a ter depois de 1904.

A C.H. Walker não criou sozinha o porto e muito menos definiu todos os projetos de modernização. Havia engenheiros brasileiros, comissões governamentais e décadas de estudos anteriores.

Mas foi ela quem recebeu o contrato para transformar boa parte desses planos em obra concreta.

Por isso, compreender sua participação ajuda a perceber que o porto moderno não surgiu espontaneamente.

Ele foi resultado de decisões políticas, engenharia internacional, capital estrangeiro e um dos maiores ciclos de obras públicas realizados no Rio de Janeiro naquele período.


Fontes documentais

PortosRio — História e Características do Porto do Rio de Janeiro. Registro oficial da contratação da C.H. Walker em 1903, implantação do Cais da Gamboa, sete armazéns e inauguração do porto em 1910.

LAMARÃO, Sérgio Tadeu de Niemeyer. Dos Trapiches ao Porto. Estudo fundamental sobre a contratação da C.H. Walker, início das obras em 1904, conclusão da primeira seção em 1911 e transformação da área portuária.

Prefeitura do Rio — estudo sobre a transformação da cidade no início do século XX. Informações sobre a trajetória da C.H. Walker, obras anteriores, valor do contrato e emprego de mais de 2 mil trabalhadores no Rio.

KESSEL, Carlos. A Vitrine e o Espelho: o Rio de Janeiro de Carlos Sampaio. Referências à contratação da Walker, à Comissão Fiscal das Obras do Porto, Francisco Bicalho e às conexões com as demais reformas urbanas.

PortosRio — Evolução Institucional e Denominações Históricas. Contexto sobre a fragmentação anterior das operações e a modernização conduzida a partir de 1903.

Memória territorial: relatos de descendentes de trabalhadores do porto, famílias da Saúde e da Gamboa e antigos ferroviários podem complementar esta pauta, sempre identificados como memória oral.


Sua família tem alguma ligação com as obras ou com os antigos armazéns?

Fotografias de trabalhadores, documentos de empresas, crachás, registros ferroviários ou imagens da construção do cais podem revelar detalhes que os arquivos oficiais não mostram.

Se você possui algum material relacionado ao antigo Porto do Rio, à Saúde, à Gamboa ou às obras do início do século XX, compartilhe com o ClassiX Rio.

E, se encontrar alguma informação que mereça correção ou aprofundamento, fale conosco.

Marcio do ClassiX

Desenvolvedor Full Stack e fundador do ClassiX. Com mais de 10 anos de experiência em tecnologia, minha missão é criar soluções digitais que transformam o cenário do comércio e da informação no Porto Maravilha em realidade.

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